quarta-feira, 28 de outubro de 2015

conversas de Café XI

(Um homem de casaco de cabedal preto está sozinho numa mesa a um canto do café. Debruça-se sobre o jornal, aberto a toda a largura da mesa.
Entra outro homem, vindo da rua. Observa as pessoas que se encontram dentro do estabelecimento. Quando visualiza o homem no canto dirige-se a ele.)

HOMEM DA RUA - Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - O quê?

HOMEM DA RUA - Errado! (aproxima-se) Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - Estás bom da cabeça?

HOMEM DA RUA - Novamente errado. Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - Não percebo. O que estás tu aqui a fazer?

HOMEM DA RUA - Não andas longe, não! A pergunta fundamental da humanidade: o que estamos nós aqui a fazer? Ou seja, o que cada um de nós está a fazer no mundo, durante sessenta ou setenta ou oitenta anos?


(O homem da rua senta-se ao lado do outro homem e, do canto, ficam a observar os restantes clientes).


rla

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Histórias C'o Ti Diano II


O dia já desaparecia embrulhado numa névoa doce, de figos maduros e uvas passas.

O Ti Diano ofegava, no seu passo lento e ritmado de regresso a casa.
O arrastar do corpo como o de um militar no fim de uma batalha. A camisa por fora das calças, desabotoada e suja. A cara tisnada com o pó transformado em lama pelo suor.
As mãos negras e grossas.
A enxada encostada ao ombro como uma arma.

Eu fazia os deveres da escola, debruçado na laje que servia de varanda ao cimo das escadas.

- Estuda rapaz! Estuda para seres um homem  — desabafava o Ti Diano, sem nunca olhar para mim.

E eu ficava à espreita, atento à sua marcha triunfal depois de um dia inteiro de trabalho, pensando que um dia seria como ele.




rla

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Histórias C'o Ti Diano


Al Berto não sabia onde nascia o sol.
O monte ocultava-lhe a manhã e os bons dias à estrela maior só eram possiveis já depois do meio dia, com os raios de luz a pino sobre a sua cabeça.
Era também nessa altura que o Ti Diano chegava da lavoura, com as rédeas do burro pela mão, passo arrastado ao longo das pedras polidas da Rua do Carrasco.

- Eh rapaz, deita-me cá uma mão!

Al Berto, de um salto, apeava-se da varanda para o terreiro e colocava-se do outro lado do equídeo.

- Já faz calor, Ti Diano...
- Pois! Ou o sol abriu o peito, ou a terra se pôs a jeito!



rla

sábado, 16 de abril de 2011

conversas de Café X

(Um homem velho fuma cachimbo e bebe aguardente velha, sozinho numa mesa. Da casa de banho sai outro homem, com as mãos molhadas.)

Homem - Vamos embora.
Velho - Ainda não.
Homem - Não tenho a vida toda. Vamos!
Velho - Ainda não acabei. Senta-te e bebe mais qualquer coisa. Que pressa!
Homem - Não tenho tempo!
Velho - Por esse andar não chegas à minha idade.
Homem - Já aqui estamos há demasiado...
Velho - Não coloques limites de tempo ao prazer.
Homem - Vou-me embora, agora. (Sai)

(O Velho cerra os olhos lentamente, ao mesmo tempo que saboreia o fumo do cachimbo que lhe escapa entre os dentes. Sorri. Bebe mais um trago de aguardente, amparando o copo com a mão direita bem aberta. O pé do copo entre os dedos. Pausa. Coloca o copo em cima da mesa e apaga o charuto. Abre os olhos.)

Velho - Agora sim, vamos! (Sai)


rla

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

conversas de café IX

(Um café vazio, à excepção de um homem - A - sentado a uma mesa junto da janela; olha para o exterior, preocupado. Lá fora, uma estrada com olhos gigantes em trânsito frequente, no mesmo sentido; ouvem-se motores que se aproximam e se afastam. Uma sirene vai aumentando o som, primeiro como se estivesse longe, até parecer que está à porta do café; nesse momento entra pela janela uma luz azul, intermitente. Pouco depois aparecem à porta dois homens vestidos de igual - B e C - e dirigem-se ao homem que está sentado.)

B - Quem é o senhor?
A - Com quem deseja falar?
B - Fiz-lhe uma pergunta, vai responder?
A - Quem é que procuram?
B - Quer responder a bem? Ou prefere...
A - (interrompendo) Não! Não vou responder.
C - Mas quem é que o senhor julga que é?
A - Eu sou um ser humano!
B - Muito bem, Sr. Humano! Faça o favor de nos acompanhar.



rla

domingo, 16 de janeiro de 2011

Conversas de Café VIII

(Duas amigas conversam em volta de um chá partilhado; pelo cheiro dir-se-ia ser de camomila.)

A - Não sei o que ele quer de mim.
B - Já lhe perguntaste?
A - São coisas que não se perguntam.
B - Há quanto tempo vocês se conhecem?
A - Há muito, para mim! Para ele, ainda não o suficiente.
B - Pelo que vejo, já esperas pouco dele...
A - Não. Espero tudo. É por isso que não o consigo evitar! Aí vem ele...

(Entra o empregado de mesa e serve mais um pouco de chá a cada uma; antes de sair sorri a ambas, atenciosamente.)


rla

terça-feira, 22 de junho de 2010

Conversas de café VII

(Um homem está ao balcão, bebe uma cerveja; chega uma mulher e toca-lhe no ombro.)

M - Como estás?
H - Bem, obrigado.
M - Não me pareces bem.
H - Porque dizes isso?
M - Pelo teu aspecto. A tua cara mete medo!
H - Um vulcão, quando entra em erupção, também mete medo. Mas por dentro está vivo, e arde.



rla