terça-feira, 1 de dezembro de 2015

percurso poético II






acordar é um martírio.

ou porque temos que abandonar o prazer de um sono morno e relaxante

ou porque acabámos de desperdiçar um tempo de vida útil em vivências irreais

acordar não é bom,
já que não podemos continuar a dormir.

acordar é frustrante,
pois percebemos que desperdiçámos horas autónomas e conscientes.

acordar é sempre um martírio.



antes viver sempre no sonho...




rla

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Tu cá tu lá



-          Por que me olha dessa maneira?
-          A sua cara não é muito comum. É estrangeiro?
-          Quer saber se sou estranho aos de cá, é isso?
-          Por outras palavras…
-          Sim, sou do norte.
-          Eu vi logo.
-          Então por que perguntou?
-          Para confirmar. Não podia continuar o negócio sem ter a certeza.
-          Prosseguimos?
-          Claro!
-          Fazia diferença, se eu não fosse de cá?
-          Não é óbvio? Só conseguiria vender a alma a um estranho.
-          Então?
-          Os de cá são o diabo!





rla

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

percurso poético I




profundo.

é o som do vento que me varre o pensamento
é a força da chuva que me percorre o olhar ausente

a carne sob as pálpebras a latejar,
e este não querer fazer nada, nem sequer levantar o braço para me cobrir com o lençol.

profundo é o peso da solidão.





rla

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

conversas de Café XI

(Um homem de casaco de cabedal preto está sozinho numa mesa a um canto do café. Debruça-se sobre o jornal, aberto a toda a largura da mesa.
Entra outro homem, vindo da rua. Observa as pessoas que se encontram dentro do estabelecimento. Quando visualiza o homem no canto dirige-se a ele.)

HOMEM DA RUA - Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - O quê?

HOMEM DA RUA - Errado! (aproxima-se) Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - Estás bom da cabeça?

HOMEM DA RUA - Novamente errado. Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - Não percebo. O que estás tu aqui a fazer?

HOMEM DA RUA - Não andas longe, não! A pergunta fundamental da humanidade: o que estamos nós aqui a fazer? Ou seja, o que cada um de nós está a fazer no mundo, durante sessenta ou setenta ou oitenta anos?


(O homem da rua senta-se ao lado do outro homem e, do canto, ficam a observar os restantes clientes).


rla

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Histórias C'o Ti Diano II


O dia já desaparecia embrulhado numa névoa doce, de figos maduros e uvas passas.

O Ti Diano ofegava, no seu passo lento e ritmado de regresso a casa.
O arrastar do corpo como o de um militar no fim de uma batalha. A camisa por fora das calças, desabotoada e suja. A cara tisnada com o pó transformado em lama pelo suor.
As mãos negras e grossas.
A enxada encostada ao ombro como uma arma.

Eu fazia os deveres da escola, debruçado na laje que servia de varanda ao cimo das escadas.

- Estuda rapaz! Estuda para seres um homem  — desabafava o Ti Diano, sem nunca olhar para mim.

E eu ficava à espreita, atento à sua marcha triunfal depois de um dia inteiro de trabalho, pensando que um dia seria como ele.




rla

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Histórias C'o Ti Diano


Al Berto não sabia onde nascia o sol.
O monte ocultava-lhe a manhã e os bons dias à estrela maior só eram possiveis já depois do meio dia, com os raios de luz a pino sobre a sua cabeça.
Era também nessa altura que o Ti Diano chegava da lavoura, com as rédeas do burro pela mão, passo arrastado ao longo das pedras polidas da Rua do Carrasco.

- Eh rapaz, deita-me cá uma mão!

Al Berto, de um salto, apeava-se da varanda para o terreiro e colocava-se do outro lado do equídeo.

- Já faz calor, Ti Diano...
- Pois! Ou o sol abriu o peito, ou a terra se pôs a jeito!



rla

sábado, 16 de abril de 2011

conversas de Café X

(Um homem velho fuma cachimbo e bebe aguardente velha, sozinho numa mesa. Da casa de banho sai outro homem, com as mãos molhadas.)

Homem - Vamos embora.
Velho - Ainda não.
Homem - Não tenho a vida toda. Vamos!
Velho - Ainda não acabei. Senta-te e bebe mais qualquer coisa. Que pressa!
Homem - Não tenho tempo!
Velho - Por esse andar não chegas à minha idade.
Homem - Já aqui estamos há demasiado...
Velho - Não coloques limites de tempo ao prazer.
Homem - Vou-me embora, agora. (Sai)

(O Velho cerra os olhos lentamente, ao mesmo tempo que saboreia o fumo do cachimbo que lhe escapa entre os dentes. Sorri. Bebe mais um trago de aguardente, amparando o copo com a mão direita bem aberta. O pé do copo entre os dedos. Pausa. Coloca o copo em cima da mesa e apaga o charuto. Abre os olhos.)

Velho - Agora sim, vamos! (Sai)


rla