terça-feira, 22 de junho de 2010

Conversas de café VII

(Um homem está ao balcão, bebe uma cerveja; chega uma mulher e toca-lhe no ombro.)

M - Como estás?
H - Bem, obrigado.
M - Não me pareces bem.
H - Porque dizes isso?
M - Pelo teu aspecto. A tua cara mete medo!
H - Um vulcão, quando entra em erupção, também mete medo. Mas por dentro está vivo, e arde.



rla

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Conversas de café VI

(um homem e uma mulher conversam lado-a-lado, a uma mesa de café.)

Ela - Eu só quero um pouco de tempo!

(o empregado chega para fazer o pedido.)

Ele - Para mim pode ser um copo de água fresca.
Ela - Eu ainda não me decidi. Preciso de mais tempo.
Empregado - Esteja à vontade. (sai)
Ele - Queres que te ajude?
Ela - Não. Tenho que decidir por mim.
Ele - Não penses. Responde. O que te apetece neste momento?

(entra o empregado.)

Empregado - O que vai ser, então?
Ela - Não sei. Traga a água que eu já peço!
Empregado - Muito bem. (sai)
Ela - Eu quero, neste momento...
Ele - Já estás a levar para a cabeça! O que é que o teu corpo pede? Diz!

(entra o empregado e serve a água; ela olha para ele e sorri.)

Empregado - Já decidiu?
Ela - Sim.
Empregado - O quê?
Ela - O mesmo que ele...



rla

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Conversas de café V

(Um homem e uma mulher sentados de frente um para o outro, com as mãos dadas por cima da mesa; partilham um bule de chá)

- Alguma vez pensaste na sorte que temos?
- O que é que queres dizer com isso?
- Eu e tu...
- É bonito, não é?
- Parece que te conheço desde sempre e, ao mesmo tempo, desejo descobrir-te... o resto da minha vida!



rla

terça-feira, 11 de maio de 2010

conversas de café IV

(duas amigas sentadas num sofá; em frente delas uma pequena mesa com um copo com água e um café; uma delas fuma um cigarro quase a chegar ao fim).

A - Sei o que me fizeste.

(silêncio)

B - E não me perguntas por que o fiz?
A - Tenho medo do que me possas dizer...
B - Então não preciso dizer nada. Tu já sabes a razão!



rla

domingo, 18 de abril de 2010

Cais ao entardecer

Águas paradas

estendem-se diante de mim

num sorriso rosa púrpura.

Breves ondas

levantam-se da ria

perseguindo um voo rasante de garça.

Um barco corta à deriva

empurrando uma onda de prata que cai

Desolada

na margem, junto a mim.

Olho um mastro de um barco

que sustenta o céu,

e admiro a sua força sideral.

Quero ser um remo que mergulha e vem respirar...

Que impulsiona e faz ondular...

Quero ser um grito de ave nocturna que se desprende do luar.

rla

quarta-feira, 17 de março de 2010

conversas de café III

(Dois amigos sentados numa mesa de café junto da janela. Lá fora é noite.)

- Há muito tempo que não o vejo.
- Eu também não.
- Creio que da última vez estávamos juntos.
- Sim, na praia.
- Numa esplanada.
- O que terá acontecido entretanto?
- Esquecemo-nos dele.
- Não acredito. O sol é como os amigos. Mesmo quando não pensamos nele, sente-se falta.


(O lado de fora da janela começa a clarear lentamente, até que o sol entra pelo café, inundando-o de luz.)


rla

sábado, 13 de março de 2010

serialkiller


-->Tinha por hobby ir pela cidade à descoberta de emoções e sensações do quotidiano. Misturava-se com a multidão e vagueava sem destino, de máquina fotográfica na mão. Realizava-o apenas por prazer e nunca com objectivos profissionais. Raramente divulgava as suas imagens e se o fazia era entre os amigos mais íntimos! Isto tornara-se num jogo, um desafio viciante. Aprisionar dezenas de rostos naquela pequena caixa negra, todos diferentes, representantes da raça humana. -->Mas o mais fascinante era o processo de aprisionamento. Os rostos tinham de ser retirados ao seu dono sem que este se apercebesse. Era como se um caçador conseguisse acertar na presa sem que esta realmente sentisse o tiro, e o mais surpreendente, sem que a presa perdesse a vida. A única forma de caçar sem deixar dor nem sangue. -->A partir do instante do disparo da máquina, cada rosto captado passava a ser seu. Depois, no regresso a casa após cada expedição citadina, fechava-se na câmara vermelha, que consistia numa arrecadação sem janelas onde tinha montado o seu pequeno estúdio fotográfico. Era onde repousavam os troféus de caça, banhados por uma luz emitida por uma lâmpada vermelha que os apaziguava dos ruídos exteriores a que tinham estado sujeitos até então, emergidos em recipientes, colocados ao longo de uma bancada que se estendia a todo o comprimento da parede, cheios de líquido revelador, assim chamado por revelar ao mundo os segredos enclausurados na máquina. Este era o ponto de partida para um outro momento delirante. Sentava-se a observar o nascimento do rosto, via aparecer as linhas da boca, do nariz, dos olhos, os traços que definiam as rugas e as expressões, os contornos do queixo, da testa, os fios do cabelo e, ponto por ponto, construía um personagem. Imaginava o que estaria ele a ver naquele momento, para onde iria, de onde vinha. Recuava a pouco e pouco no seu passado, imaginava onde vivia, a casa que o abrigava, quem o acompanhava, a sua profissão, as suas rotinas diárias, as suas roupas, aquilo que ele mais gostava, aquilo que ele detestava, o que o fazia feliz, o que o deixava mais triste. E apontava tudo num caderno de linhas. No fim dava-lhe um nome. Esse nome escrevia-o por baixo da fotografia colada na capa do caderno. No fim de todo este processo sentia-se completo, como que saciado de um manjar dos deuses, como se acabasse de cheirar o perfume de uma ninfa.



rla