sexta-feira, 11 de março de 2016

tu cá tu lá - IV




- Uma manhã perfeita!
- Acha?
- Uma manhã de sol, tranquila, perfumada pelas camélias do jardim...
- Prefiro as manhãs de chuva e vento, enquanto me aperto no calor afável dos lençóis!
- Uma manhã inspiradora!
- Hoje?
- Sim, hoje. Este passeio pelo parque é vitalizante. Um bálsamo para os sentidos. Não lhe dá vontade de criar?
- Sinceramente? Não. Eu necessito de estar enclausurado no meu escritório para me concentrar. Estes passeios são uma perda de tempo!
- A mim enchem-me a alma!
- Eu faço-o pela sua companhia... porque gosto de conversar consigo.
- Lá está! Tudo está bem, a seu tempo e no seu lugar. É o equilíbrio do mundo no seu esplendor.






rla

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Tu cá tu lá III



- Podia repetir novamente a sua profissão, por favor?
- Sou Endireita.
- É algo relacionado com a construção civil, correto?
- Não, não.
- Ah! Peço desculpa. É um cargo politico?
(silêncio)
- (soletra) EN-DI-REI-TA! Endireita.
- Que curioso! Para mim, essa profissão seria muito útil no governo.
- Sim, os políticos sofrem muito de stress. É normal recorrerem ao meu consultório para corrigir torcicolos, dores físicas, fibromialgias…
- Não era bem essa a função que eu estava a idealizar… um Endireita é alguém que devolve o rumo normal às coisas, não é?
- A minha função é corrigir a estrutura óssea e muscular das pessoas, ou outros problemas do corpo. É tudo muito físico.
- Deixe-se disso! Um Endireita é praticamente um Deus. Compõe o que está torto, recoloca nos carris quando as coisas saem do eixo, corrige o que está errado… é isso um Endireita, não é?
- Nunca tinha pensado dessa forma…
- Já viu a quantidade de trabalho que um Endireita pode ter no nosso país?
- Tem razão!
- Então, já decidiu a sua profissão?




rla

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Tu cá tu lá II




- Como está o senhor?
- Não muito bem, obrigado.
- Então?
- Ando com uma dor…
- Menos mal!
- Como?
- Compreendo a estranheza da questão.
- Considera a dor um mal menor?
- Sim. A dor, para o artista, também é uma inspiração!




rla

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

percurso poético IV




A história começa de uma maneira pouco usual...

Ninguém sabia o nome do homem que ali estava, discursando no meio da praça e seguido atentamente por dezenas de pessoas.

Não era padre nem pregador.
Não era politico, não era candidato e muito menos presidente de Junta.
Não era dirigente associativo nem de nenhum clube desportivo.

Mas certamente que tinha o dom da palavra.
Com o evoluir do discurso mais gente se acumulava em seu redor. E os que o ouviam, ficavam, sem pressa e sem compromissos de maior importância. Notava-se nos seus rostos um prazer único por cada palavra recebida.

Investiguei o caso com relativa curiosidade.
Questionei algumas pessoas da multidão, que de tão atentas nem deram conta da minha presença.
Entrei no café central, onde as noticias surgiam em primeira mão pela boca dos clientes, mas quase todos tinham já acorrido à praça e o dono, pobre capitão do navio proibido de o abandonar, lastimava-se inconsolável por também permanecer na ignorância.
Indaguei um taxista que aguardava cliente dentro do carro. Contudo, após estrebuchar do seu sono, limitou-se a observar ao longe o ajuntamento inesperado no largo da praça, revelando maior surpresa que a minha.

Até que, numa corrida fugaz, serpenteando os homens e as mulheres estacados em pé, passaram  a meu lado duas crianças esbaforidas. Agarrei o braço de uma delas e perguntei:

- Ouve lá rapaz, sabes quem é aquele senhor ali no meio?

Ao que ele me responde, ainda meio assustado:

- Dizem que é um poeta!





rla

domingo, 6 de dezembro de 2015

percurso poético III




Um remoinho de folhas dança aos meus pés à medida que avanço pela rua. Está uma manhã luminosa e amena, distante das memórias dos dias de novembro que me obrigavam a embrulhar em casacos e lenços de algodão.

O ar perfumado pelo despertar ainda ténue da natureza.

Alguém, algures num prédio de doze andares, espera por mim para uma reunião de trabalho. O meu corpo rejeita o habitual percurso e leva-me instantaneamente pela terra batida de um jardim. Um caminhar desprendido e prazeroso sob os raios de sol que perfuram as copas das árvores.

Quando entrar no gabinete, de sorriso aberto na cara, com certeza que ninguém irá acreditar na desculpa irreal do trânsito...






rla

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

percurso poético II






acordar é um martírio.

ou porque temos que abandonar o prazer de um sono morno e relaxante

ou porque acabámos de desperdiçar um tempo de vida útil em vivências irreais

acordar não é bom,
já que não podemos continuar a dormir.

acordar é frustrante,
pois percebemos que desperdiçámos horas autónomas e conscientes.

acordar é sempre um martírio.



antes viver sempre no sonho...




rla

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Tu cá tu lá



-          Por que me olha dessa maneira?
-          A sua cara não é muito comum. É estrangeiro?
-          Quer saber se sou estranho aos de cá, é isso?
-          Por outras palavras…
-          Sim, sou do norte.
-          Eu vi logo.
-          Então por que perguntou?
-          Para confirmar. Não podia continuar o negócio sem ter a certeza.
-          Prosseguimos?
-          Claro!
-          Fazia diferença, se eu não fosse de cá?
-          Não é óbvio? Só conseguiria vender a alma a um estranho.
-          Então?
-          Os de cá são o diabo!





rla

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

percurso poético I




profundo.

é o som do vento que me varre o pensamento
é a força da chuva que me percorre o olhar ausente

a carne sob as pálpebras a latejar,
e este não querer fazer nada, nem sequer levantar o braço para me cobrir com o lençol.

profundo é o peso da solidão.





rla

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

conversas de Café XI

(Um homem de casaco de cabedal preto está sozinho numa mesa a um canto do café. Debruça-se sobre o jornal, aberto a toda a largura da mesa.
Entra outro homem, vindo da rua. Observa as pessoas que se encontram dentro do estabelecimento. Quando visualiza o homem no canto dirige-se a ele.)

HOMEM DA RUA - Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - O quê?

HOMEM DA RUA - Errado! (aproxima-se) Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - Estás bom da cabeça?

HOMEM DA RUA - Novamente errado. Qual é a pergunta fundamental da humanidade?

HOMEM DO CANTO - Não percebo. O que estás tu aqui a fazer?

HOMEM DA RUA - Não andas longe, não! A pergunta fundamental da humanidade: o que estamos nós aqui a fazer? Ou seja, o que cada um de nós está a fazer no mundo, durante sessenta ou setenta ou oitenta anos?


(O homem da rua senta-se ao lado do outro homem e, do canto, ficam a observar os restantes clientes).


rla

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Histórias C'o Ti Diano II


O dia já desaparecia embrulhado numa névoa doce, de figos maduros e uvas passas.

O Ti Diano ofegava, no seu passo lento e ritmado de regresso a casa.
O arrastar do corpo como o de um militar no fim de uma batalha. A camisa por fora das calças, desabotoada e suja. A cara tisnada com o pó transformado em lama pelo suor.
As mãos negras e grossas.
A enxada encostada ao ombro como uma arma.

Eu fazia os deveres da escola, debruçado na laje que servia de varanda ao cimo das escadas.

- Estuda rapaz! Estuda para seres um homem  — desabafava o Ti Diano, sem nunca olhar para mim.

E eu ficava à espreita, atento à sua marcha triunfal depois de um dia inteiro de trabalho, pensando que um dia seria como ele.




rla

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Histórias C'o Ti Diano


Al Berto não sabia onde nascia o sol.
O monte ocultava-lhe a manhã e os bons dias à estrela maior só eram possiveis já depois do meio dia, com os raios de luz a pino sobre a sua cabeça.
Era também nessa altura que o Ti Diano chegava da lavoura, com as rédeas do burro pela mão, passo arrastado ao longo das pedras polidas da Rua do Carrasco.

- Eh rapaz, deita-me cá uma mão!

Al Berto, de um salto, apeava-se da varanda para o terreiro e colocava-se do outro lado do equídeo.

- Já faz calor, Ti Diano...
- Pois! Ou o sol abriu o peito, ou a terra se pôs a jeito!



rla

sábado, 16 de abril de 2011

conversas de Café X

(Um homem velho fuma cachimbo e bebe aguardente velha, sozinho numa mesa. Da casa de banho sai outro homem, com as mãos molhadas.)

Homem - Vamos embora.
Velho - Ainda não.
Homem - Não tenho a vida toda. Vamos!
Velho - Ainda não acabei. Senta-te e bebe mais qualquer coisa. Que pressa!
Homem - Não tenho tempo!
Velho - Por esse andar não chegas à minha idade.
Homem - Já aqui estamos há demasiado...
Velho - Não coloques limites de tempo ao prazer.
Homem - Vou-me embora, agora. (Sai)

(O Velho cerra os olhos lentamente, ao mesmo tempo que saboreia o fumo do cachimbo que lhe escapa entre os dentes. Sorri. Bebe mais um trago de aguardente, amparando o copo com a mão direita bem aberta. O pé do copo entre os dedos. Pausa. Coloca o copo em cima da mesa e apaga o charuto. Abre os olhos.)

Velho - Agora sim, vamos! (Sai)


rla

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

conversas de café IX

(Um café vazio, à excepção de um homem - A - sentado a uma mesa junto da janela; olha para o exterior, preocupado. Lá fora, uma estrada com olhos gigantes em trânsito frequente, no mesmo sentido; ouvem-se motores que se aproximam e se afastam. Uma sirene vai aumentando o som, primeiro como se estivesse longe, até parecer que está à porta do café; nesse momento entra pela janela uma luz azul, intermitente. Pouco depois aparecem à porta dois homens vestidos de igual - B e C - e dirigem-se ao homem que está sentado.)

B - Quem é o senhor?
A - Com quem deseja falar?
B - Fiz-lhe uma pergunta, vai responder?
A - Quem é que procuram?
B - Quer responder a bem? Ou prefere...
A - (interrompendo) Não! Não vou responder.
C - Mas quem é que o senhor julga que é?
A - Eu sou um ser humano!
B - Muito bem, Sr. Humano! Faça o favor de nos acompanhar.



rla

domingo, 16 de janeiro de 2011

Conversas de Café VIII

(Duas amigas conversam em volta de um chá partilhado; pelo cheiro dir-se-ia ser de camomila.)

A - Não sei o que ele quer de mim.
B - Já lhe perguntaste?
A - São coisas que não se perguntam.
B - Há quanto tempo vocês se conhecem?
A - Há muito, para mim! Para ele, ainda não o suficiente.
B - Pelo que vejo, já esperas pouco dele...
A - Não. Espero tudo. É por isso que não o consigo evitar! Aí vem ele...

(Entra o empregado de mesa e serve mais um pouco de chá a cada uma; antes de sair sorri a ambas, atenciosamente.)


rla

terça-feira, 22 de junho de 2010

Conversas de café VII

(Um homem está ao balcão, bebe uma cerveja; chega uma mulher e toca-lhe no ombro.)

M - Como estás?
H - Bem, obrigado.
M - Não me pareces bem.
H - Porque dizes isso?
M - Pelo teu aspecto. A tua cara mete medo!
H - Um vulcão, quando entra em erupção, também mete medo. Mas por dentro está vivo, e arde.



rla

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Conversas de café VI

(um homem e uma mulher conversam lado-a-lado, a uma mesa de café.)

Ela - Eu só quero um pouco de tempo!

(o empregado chega para fazer o pedido.)

Ele - Para mim pode ser um copo de água fresca.
Ela - Eu ainda não me decidi. Preciso de mais tempo.
Empregado - Esteja à vontade. (sai)
Ele - Queres que te ajude?
Ela - Não. Tenho que decidir por mim.
Ele - Não penses. Responde. O que te apetece neste momento?

(entra o empregado.)

Empregado - O que vai ser, então?
Ela - Não sei. Traga a água que eu já peço!
Empregado - Muito bem. (sai)
Ela - Eu quero, neste momento...
Ele - Já estás a levar para a cabeça! O que é que o teu corpo pede? Diz!

(entra o empregado e serve a água; ela olha para ele e sorri.)

Empregado - Já decidiu?
Ela - Sim.
Empregado - O quê?
Ela - O mesmo que ele...



rla

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Conversas de café V

(Um homem e uma mulher sentados de frente um para o outro, com as mãos dadas por cima da mesa; partilham um bule de chá)

- Alguma vez pensaste na sorte que temos?
- O que é que queres dizer com isso?
- Eu e tu...
- É bonito, não é?
- Parece que te conheço desde sempre e, ao mesmo tempo, desejo descobrir-te... o resto da minha vida!



rla

terça-feira, 11 de maio de 2010

conversas de café IV

(duas amigas sentadas num sofá; em frente delas uma pequena mesa com um copo com água e um café; uma delas fuma um cigarro quase a chegar ao fim).

A - Sei o que me fizeste.

(silêncio)

B - E não me perguntas por que o fiz?
A - Tenho medo do que me possas dizer...
B - Então não preciso dizer nada. Tu já sabes a razão!



rla

domingo, 18 de abril de 2010

Cais ao entardecer

Águas paradas

estendem-se diante de mim

num sorriso rosa púrpura.

Breves ondas

levantam-se da ria

perseguindo um voo rasante de garça.

Um barco corta à deriva

empurrando uma onda de prata que cai

Desolada

na margem, junto a mim.

Olho um mastro de um barco

que sustenta o céu,

e admiro a sua força sideral.

Quero ser um remo que mergulha e vem respirar...

Que impulsiona e faz ondular...

Quero ser um grito de ave nocturna que se desprende do luar.

rla

quarta-feira, 17 de março de 2010

conversas de café III

(Dois amigos sentados numa mesa de café junto da janela. Lá fora é noite.)

- Há muito tempo que não o vejo.
- Eu também não.
- Creio que da última vez estávamos juntos.
- Sim, na praia.
- Numa esplanada.
- O que terá acontecido entretanto?
- Esquecemo-nos dele.
- Não acredito. O sol é como os amigos. Mesmo quando não pensamos nele, sente-se falta.


(O lado de fora da janela começa a clarear lentamente, até que o sol entra pelo café, inundando-o de luz.)


rla