sábado, 13 de março de 2010

serialkiller


-->Tinha por hobby ir pela cidade à descoberta de emoções e sensações do quotidiano. Misturava-se com a multidão e vagueava sem destino, de máquina fotográfica na mão. Realizava-o apenas por prazer e nunca com objectivos profissionais. Raramente divulgava as suas imagens e se o fazia era entre os amigos mais íntimos! Isto tornara-se num jogo, um desafio viciante. Aprisionar dezenas de rostos naquela pequena caixa negra, todos diferentes, representantes da raça humana. -->Mas o mais fascinante era o processo de aprisionamento. Os rostos tinham de ser retirados ao seu dono sem que este se apercebesse. Era como se um caçador conseguisse acertar na presa sem que esta realmente sentisse o tiro, e o mais surpreendente, sem que a presa perdesse a vida. A única forma de caçar sem deixar dor nem sangue. -->A partir do instante do disparo da máquina, cada rosto captado passava a ser seu. Depois, no regresso a casa após cada expedição citadina, fechava-se na câmara vermelha, que consistia numa arrecadação sem janelas onde tinha montado o seu pequeno estúdio fotográfico. Era onde repousavam os troféus de caça, banhados por uma luz emitida por uma lâmpada vermelha que os apaziguava dos ruídos exteriores a que tinham estado sujeitos até então, emergidos em recipientes, colocados ao longo de uma bancada que se estendia a todo o comprimento da parede, cheios de líquido revelador, assim chamado por revelar ao mundo os segredos enclausurados na máquina. Este era o ponto de partida para um outro momento delirante. Sentava-se a observar o nascimento do rosto, via aparecer as linhas da boca, do nariz, dos olhos, os traços que definiam as rugas e as expressões, os contornos do queixo, da testa, os fios do cabelo e, ponto por ponto, construía um personagem. Imaginava o que estaria ele a ver naquele momento, para onde iria, de onde vinha. Recuava a pouco e pouco no seu passado, imaginava onde vivia, a casa que o abrigava, quem o acompanhava, a sua profissão, as suas rotinas diárias, as suas roupas, aquilo que ele mais gostava, aquilo que ele detestava, o que o fazia feliz, o que o deixava mais triste. E apontava tudo num caderno de linhas. No fim dava-lhe um nome. Esse nome escrevia-o por baixo da fotografia colada na capa do caderno. No fim de todo este processo sentia-se completo, como que saciado de um manjar dos deuses, como se acabasse de cheirar o perfume de uma ninfa.



rla

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

conversas de café II

(um homem sentado ao balcão; uma mulher, numa mesa do café, observa-o discretamente; algum tempo depois o homem vira-se e, ao ver a mulher, aproxima-se da sua mesa.)

- Quando chegaste?

- Pouco tempo depois de ti.

- Eu estou aqui há meia hora!

- É verdade.

- Viste-me chegar?

- (serenamente) Eu disse que cheguei depois de ti.

(pausa)

- Por que não foste logo falar comigo?

- Não tinha nada para te falar.

- Tu convidaste-me para vir ter aqui, a este café!

- Eu sei. Tinha saudades tuas. Senta-te.

(o homem senta-se; os dois ficam frente-a-frente, olhando-se mutuamente)


rla

domingo, 21 de fevereiro de 2010

casa em ruínas


-->O quarto cheira a cogumelos mortos. Uma cama de ferro, com as costas próximas de uma parede caiada, ampara o peso de uma mulher, deitada com a barriga sobre a colcha de renda com cheiro a naftalina. As mãos agarradas ao ferro retorcido da cabeceira. Ao fundo da cama uma cómoda de madeira escura, sobre a qual se encontra um napperon de linho a todo o comprimento do tampo, e sobre ele um retrato dos noivos a descer o altar, acabados de se prometer até à morte, um ao outro. Ela de branco, ele de preto. Uma fotografia a preto e branco. Um casal que nunca teve cor. A abençoá-los, uma estatueta de Nossa Senhora de Fátima, com um vestido branco parecido com o da noiva no retrato. Ao lado, um porta jóias, que nunca teve ouro nem prata, tem guardado um dedal e um par de agulhas e alfinetes.



rla

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

quero o sol


Em dias de chuva e frio há um peso que me faz arrastar o corpo. Que me diz “levanta-te, faz alguma coisa; por que não escreves?”. Eu deixo-me ficar debaixo dos cobertores. E penso no amor.
Nos dias solarengos há uma força que me faz saltar, correr, cantar. Que me diz “ri, escreve”. E eu saio à rua. E amo.



rla